“Tentativa de esgotamento de um local parisiense”

Foto Pierre Getzler
Georges Perec, Café de la Mairie, Place St-Sulpice, 1974, Foto: Pierre Getzler

Durante três dias seguidos, em 1974, o escritor Georges Perec  se postou em dois cafés e uma tabacaria da Praça Saint-Sulpice, em Paris e observou o movimento. Como um estrangeiro, um local ou como um sociológo em férias, seu olhar desfilou pelas banalidades de um dia qualquer na capital francesa. E, à semelhança dos filmes do início dos século XX classificados como “Sinfonias de uma cidade”, escreveu “Tentativa de esgotamento de um local parisiense”.

Assim, através de frases telegráficas, o leitor sente os cheiros, os sons, percorre luzes e comportamentos naquele microcosmos de Paris. É um livro curto. Ao folheá-lo, sentamos com Perec no Café de la Mairie ou na Tabacaria Saint-Sulpice e absorvemos a atmosfera. Ambos calados. Neste livro, Perec transfusiona sua literatura por telepatia. Ele não fala conosco. Ele pensa. E nós captamos tanto aqui quanto lá, no café esfumaçado.

Ou seja, Perec fez o que fazemos quando estamos fora, somos estrangeiras e nos sentimos livres: praticamos o estranhamento. Paramos, respiramos e exercemos – ali, naquele exato momento – a vida, sinestesicamente .

Aqui reproduzimos um trecho, respeitando a formatação escolhida pelo autor:


“A DATA: 19 DE OUTUBRO DE 1974 (SÁBADO)

A HORA: 10:45

O LOCAL: TABACARIA SAINT-SULPICE

O TEMPO: CHUVA FINA, TIPO GAROA

 

(…) EM BUSCA DE UMA DIVERGÊNCIA:

 

O Café de la Mairie está fechado (não o estou vendo; sei

disso porque o vi ao descer do ônibus)

Bebo uma mineral ao passo que ontem bebia um café

(em que isso transforma a praça?)

 

O prato do dia do Fontaine Saint-Sulpice terá mudado

(ontem era bacalhau)? Sem dúvida, mas estou longe

demais para decifrar o que está escrito no menu da

porta.

 

(2 ônibus de turismo, o segundo se chama “Walz

Reisen”): os turistas de hoje podem ser os mesmos

de ontem (uma pessoa que faça o “tour de Paris” em

ônibus na sexta terá vontade de fazê-lo novamente no

sábado?)

 

Ontem, havia na calçada, bem à frente da minha mesa,

um tíquete do metrô; hoje há, não exatamente no

mesmo local, um invólucro de bombom (celofane) e

um pedaço de papel dificilmente identificável (mais ou

menos do tamanho de um maço de cigarros, mas de

um azul bem mais claro).

 

Passa uma jovem de boina vermelha, comprida de

pompom (eu já havia visto ontem, mas ontem eram

duas); a mãe veste uma saia comprida feita de retalhos

costurados juntos (mas não exatamente um patchwork)

 

Uma pomba se pendura no alto de um poste

 

Entram pessoas na Igreja (para visitá-la? Está na hora da

missa?)

 

Um transeunte que se parece muito vagamente com

Michel Mohrt passa diante do café e parece espantar-se

por me ver ainda sentado diante de uma água mineral

e umas folhas de papel

 

Um carro: “Percival Tours”

 

Outras pessoas entram na Igreja

Os ônibus de turismo não adotam sempre a mesma

estratégia: vêm todos do Luxemburgo pela rua

Bonaparte; alguns continuam na rua Bonaparte; outros

viram na rua do Vieux-Colombier; essa diferença nem

sempre corresponde à nacionalidade dos turistas.

 

Ônibus “Wehner Reisen”

Camburão da polícia

Pausa”

(“Tentativa de esgotamento de um local parisiense” – publicado originalmente em 1975 -, Georges Perec, Prefácio de Ricardo Luis Silva, Tradução de Ivo Barroso, Editora G. Gili, Ltda., São Paulo, 2016)

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