Qual a viagem da sua vida?

Como uma viagem acontece? Como ela surge dentro de você? Não, ela não é sempre escolhida numa vitrine da CVC, enquanto você passa pelos corredores do shopping entre a hora da manicure e a do café com a amiga. Em geral, a necessidade de uma viagem brota nos momentos mais inesperados. Como o amor.

A ideia da partida embute uma carência do corpo ou da mente. Você anda trancada 12h no escritório gerando relatórios cada vez mais gordos. Ou acordada noites seguidas porque mergulhou num projeto de start up que vai revolucionar a existência virtual mundial. Ou simplesmente você está esgotada de tudo o que a rodeia. Trabalho, administração da casa, da família, do casamento, dos filhos. Seu corpo pede novas sensações. Sua mente exige esvaziamento. É hora.

Verdades ocultas

Não se assuste, a viagem é um vento que bate. Uma fala dita por um personagem na TV. O comentário de um amigo. Uma capa de livro aleatória numa banca de livraria. Uma memória de infância. As viagens da sua vida estão à espreita, logo, seu despertar é uma questão de tempo. Madrid estava escondida nas telas da Série Negra de Goya, recuperada por um filme de Milos Forman. Já o esplendor labiríntico de Veneza chegou em cinemascope quando aluguei “Summertime”, do David Lean (nesse caso, foi covardia. Lean seduz sem perdão: Katherine Hepburn chega na Estação de Santa Lucía e o Grand Canal se descortina em grande angular. Depois, com sua 16mm a tiracolo, ela filma a Piazza San Marco, se apaixona por Rossano Brazzi e passa o resto do filme beijando-o lascivamente pelos becos. Fala sério, quem não compraria uma passagem depois de sequências como essas?…)

Mas nem sempre a viagem de sua vida se esconde em um escaninho inexplorado da tumba de Tutancâmon. Ela pode ser um destino exaustivamente percorrido. Ela pode ser Paris, por exemplo. Todos já foram. Todos a amam, veneram, alardeiam. Portanto, o que lhe sobra? O que sobrará, já que ela não se revela facilmente? Como sabemos, toda suntuosidade fácil é cenográfica. Provavelmente, não é essa Paris que lhe interessa. Certamente você está em busca daquilo que a fará única para você. Pois, vá em busca desse lugar. Saia dos arrondisements previstos pelos guias.

Em Paris, não durmo. Quero beber, comer, fazer amor à tarde e me contaminar de ideias pelas esquinas. Quero vibrar como Breton, Anäis, Simone de Beauvoir y Deleuze (com Yves Montand para temperar). Em La Habana, quero que o Malecón me molhe inteira e depois que as ruas estreitas de Centro Havana venham ter comigo, indolentes, como quando sussurravam para Nicolás Guillén. Em Cingapura, beber no Raffle’s Hotel como Somerset Maugham e medir ao vivo aquele ensopado sociocultural milimetricamente calculado. Por fim, na Praia do Amor, não quero nada. Só entender minha insignificância perante as falésias monumentais e o mar sem fim.

Juro pelas cadeiras inclinadas do Jardim de Luxemburgo que existe uma travessia esperando por você – apesar de hoje não existir em sua vida qualquer sinal de quando ela ocorrerá. Só me prometa uma coisa: não se assuste se viagem da sua vida também revelar o seu lugar no mundo.

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