Por que estamos aqui

No dia 1º de Novembro de 2012, tranquei as portas do apartamento onde estava hospedada, desci as escadas na maior velocidade possível, ganhei a rua e entrei num taxi. ���Coliseo!”, bradei a plenos pulmões. O motorista, um senhor de uns 65 anos, acostumado com o entusiasmo, cravou: “Turista?!����� Apenas sorri, não queria interagir muito para não estragar aquele momento breve e delicado que antecede a materialização de um velho sonho. E assim começou o interrogatório: “Americana? Espanhola? Alemã?”… Alemã??? – franzi.

“Brasileira”, informei com menos alegria para não estimular a curiosidade. Mas o motorista me olhou sério pelo retrovisor e mandou: “E dove il marito?���

— Marito? Che marito?
— Tu marito.
��� Do you speak english? – instiguei sem esperança. Mas ele falava!
— I don’t have a husband.
����� Niente marito?
— Niente marito.
��� Niente marito?????????? Como niente marito????????

Aí me irritei: Como marido? Para que marido? Por acaso eu precisava de marido para comer? Não. Para caminhar? Não. Para respirar? Não! Então por que raios eu ia precisar de um marido para viajar?!

O taxista não entendia a minha lógica e eu definitivamente não alcançava a dele. Chegamos rapidamente ao fim do caminho com ele pontuando que nunca havia visto uma mulher como eu viajando sozinha. Eu captei o recado. Por “mulher como eu” significava daquela idade. Estava prestes a completar 48 anos. A cidade estava cheia de viajeras. Muitas mochileiras sozinhas ou com amigas, jovens com namorados, adultas com seus filhos, senhoras com netos e maridos. Uma mulher de quase meia idade desacompanhada era uma peça que não se encaixava em nenhum arranjo social. A coisa piorou quando ele perguntou se eu tinha filho. Eu tenho. Era visível, a cabeça do italiano fundiu. Como uma mãe de família sai pelo mundo desacompanhada e ainda deixa o filho em casa (não importa se adulto). E sequer se despediu enquanto eu abria a porta deixando o troco, só esbravejava: “Niente marito!!!”

O motorista italiano foi apenas o primeiro dos homens a se assombrar com a figura de uma mulher adulta circulando a sós pelo mundo. Passei cinco meses e meio fora de casa. Vivi situações de risco, tensão, sufoco, desespero, solidão, incertezas e culpa, muita culpa especialmente por carregar um peso que não devia – em muitos aspectos. E pensava sempre que ninguém nos prepara para estar no mundo desta maneira. Há sempre muitas sugestões de roteiro, muitas dicas imperdíveis, muito glamour mas nunca ninguém chega e diz “olha, compra um jogo de garfo, faca e colher, porque quando você estiver num bairro horr��vel e num hotel sem room service por falta de grana, dá para comer a comida enlatada com mais dignidade e menos arrependimento por estar naquela situação���.

Além do mais, o viajante padrão é homem e jovem ou idoso e rico. Os guias não incluem em suas recomendações, por exemplo, o que fazer quando se é totalmente ignorada por horas dentro de uma delegacia de polícia apenas porque foi denunciar o taxista que lhe roubou e a largou no alto de uma colina deserta. Você é mulher e está sozinha. Não espere deferências. Ninguém lhe protege. Apenas a embaixada nos casos gravíssimos, claro.

Por fim, o número de mulheres viajando desacompanhadas cresce exponencialmente a cada ano, assim como o interesse por essa modalidade de deslocamento. Segundo uma pesquisa realizada pelo site Booking.com no inicio deste ano, esse total cresceu 50% nos últimos cinco anos. Ao mesmo tempo, muitas que revelam sentir um desejo intenso por aventura não se lançam por medo. E não sem razão. O mundo é de fato um ambiente de alta periculosidade. Mas também guarda surpresas inolvidáveis…

O Mulheres do Mundo surgiu dessa falta de (re) conhecimento. Nosso objetivo é prover às viajantes informações de qualidade para que possam tomar suas decisões de investimento, roteiros, transporte e hospedagem em um momento crucial de suas vidas. Todas somos jornalistas com o mesmo perfil inquieto, curioso e desbravador que molda as grandes aventureiras desde o século XVIII. Logo, por que não ajudar nossas irmãs a realizarem seus sonhos?

Falando em sonhos, toda viagem embute um segredo, mas que só é revelado à viajante cerca de um mês após ter voltado. Não há como saber o segredo antes, só se você viajar. Quem já retornou sabe do que digo. Quem ainda não foi, sugiro avisar aos parentes e amigos que haverá mudanças.

Se quiser, podemos lhe ajudar a descobrir. Vamos?
Então coloque os cintos.

Voc�� agora é uma mulher do mundo.

 

Rosane Serro

 


logo-mailMulheres do Mundo é um produto da Santo Antonio Documenta. Fundada por Rosane Serro e Pedro Monteiro, a Santo Antonio Documenta é uma produtora especializada em projetos audiovisuais e multimídia com ênfase na construção de memória e experimentação de linguagens.