Não esqueça seu caderno de viagem

Em 26 de novembro de 2012, escrevi ao meu filho, Pedro Monteiro:

 

“Embarquei para o Butão às 14h30 do dia 23/11. Cheguei nesse lugar abençoado por Deus e bonito por natureza cerca de 16h. Às 17, já escurecendo, dei entrada no hotel. Às 18h30, tinha um jantar de boas vindas com outros viajantes (entre eles, 66 adolescentes cingapurenses, com quem vivi uma história e um desdobramento dela incríveis – te conto em Londres). Às 22h estava de volta. Morta.“

Cinco anos depois, em 21 de julho de 2017, releio a carta e me pergunto: que raios são esses 66 adolescentes cingapurenses com quem vivi uma história? E que história foi essa? Bebi até cair e acordei no meio da praça? Fui a uma convenção de Hello Kitty e fiz cosplay de Jiraya? Converti todo mundo à Igreja do Nosso Senhor John Coltrane dos Últimos Dias e marquei passagem para San Francisco? O que foi que aconteceu que não lembro nenhuma vírgula sequer???

Vocês entenderam meu ponto de vista. Não esqueça seu caderno de viagem, ele é o seu grande companheiro de estrada (sim, eu sei, já disse o mesmo a respeito dos benjamins). Basicamente porque ele guarda sua jornada desde o momento em que ela nasce até se transformar em História.

Bíblia e antropologia

O primeiro ato de uma viagem é o planejamento. E abrir um caderno novo para anotar pensamentos soltos, preços de passagens, links para avaliação futura e dicas dos amigos é o melhor sinal de que aquele sonho está para se concretizar. Se você é do tipo organizada, vai assentar os lugares que quer conhecer, os horários dos museus, as lojas para vasculhar ofertas e, claro, os restaurantes que vão entrar para sua vida. Ou seja, nesta fase, ele é sua bíblia. Tudo o que você precisa saber está lá, não no Google. Aliás, entre tantas vantagens, seu caderno de viagens é portátil, não precisa recarregar a bateria e fica 100% disponível offline. Uma vez que alça voo e aterrissa, ele se metamorfoseia e adquire novas funções. A bíblia vira então um roteiro tanto de consulta quanto de descarte.

Mas, ao mesmo tempo, o caderno de viagem se torna um lugar de registro e construção de memória. Uma memória que sem qualquer documentação corre o risco de se desintegrar em pó. Por isso ele é um objeto valioso. Ele transforma sua viagem pessoal em História. Ele é um documento, uma relíquia, um atestado a favor da vida.

Veja, por exemplo, o que Albert Camus (um dos ícones do Existencialismo, autor de “A Peste” e “O estrangeiro”) escreveu em seu diário em 18 de julho de 1949, quando percorria… o Rio de Janeiro: “Chove a cântaros sobre a baía fumegante e sobre a cidade. Manhã calma para trabalhar. Vou almoçar com Lage num restaurante simpático que dá para o porto. Às três horas, tenho um encontro com Barleto para visitar o subúrbio operário. Pegamos um trem suburbano. Meier: Todos os Santos. Madeidura (sic). O que me impressiona é o lado árabe. Lojas sem vitrines. Tudo está na rua. Vi um coche funerário: um cenotáfio estilo Império, com enormes colunas de bronze dourado sobre uma caminhonete de entregas, pintada de preto. Para os ricos, os cavalos. Tecidos berrantes colocados na vitrine. Intermináveis subúrbios, que atravessamos num bonde sacolejante. Vazios, na maior parte do tempo, e tristes (as tribos operárias acampadas nas portas das cidades me lembram B.), mas coagulam-se de longe em longe, em torno de um centro, de uma praça, reluzentes de néon, de luzes verdes e vermelhas (em pleno dia), inchados por esta multidão multicolor, para quem, às vezes, um alto-falante vocifera notícias de futebol. Pensa-se nessas multidões que não param de crescer sobre a superfície do mundo e que acabarão por tudo recobrir e se asfixiarem. Compreendo melhor o Rio assim, melhor que em Copacabana, de qualquer maneira, e o seu aspecto de mancha de óleo estendendo-se até o infinito em todas as direções. De volta, num lotaçao (sic), espécie de táxi coletivo, assistimos a um dos inúmeros acidentes provocados pelo trânsito inverossímil. Um pobre velho negro mal embrenhado numa avenida rutilante de luzes é colhido por um ônibus, que o lança dez metros à frente, como uma bola de tênis, contorna-o e foge. Isso se deve à estúpida lei de flagrante delito, segundo o qual o motorista teria sido levado à prisão. Portanto, ele foge, não há mais flagrante delito e não será preso. O velho negro fica lá, sem que ninguém o levante. Mas o impacto teria matado um boi. Descubro mais tarde que será colocado sobre ele um lençol branco, em que o sangue irá se espalhando, com velas acesas ao redor, e o trânsito continuará à sua volta, contornando-o, até que cheguem as autoridades para a reconstituição.

À noite, jantar em casa de Robert Claverie. Só franceses, o que me relaxa. Quando se fala uma língua estrangeira, segundo Huxley, há alguém dentro de si que diz não com a mão.”

Neste 2017, as observações de Albert Camus sobre um Rio de Janeiro em fase de expansão urbana ganham ares antropológicos ao descrever nossas práticas comerciais, nossos rituais funerários e até nossa falta de solidariedade naquele 1949. O caderno de viagem de Camus, um relato pessoal e sanguíneo de um inverno carioca (apesar da sua sensação de “baía fumegante”), é hoje, 68 anos depois, um documento de um tempo que não vimos.

Portanto, diga que sim, que em suas próximas viagens um caderno de bolso recheado de observações e perguntas será tão importante quanto seu passaporte. Tenha certeza que seus amigos, seus filhos e todos seus descendentes lhe serão eternamente gratos pela decisão.

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