Londres: a primeira vez no centro do mundo

Planejar uma viagem sozinha dá um friozinho no estômago. Mas é na hora em que você clica em “finalizar a compra da passagem”, que o friozinho no estômago vira dor de barriga. Como toda primeira vez, planejar e viajar sozinha é excitante, mas também uma atividade amedrontadora quando se toma consciência da dimensão da decisão. Não fui com amiga, com parente, com ninguém. Só eu e meu passaporte. Eu fui para trabalhar.

Sou pedagoga e trabalho na área de defesa dos direitos das mulheres, crianças e adolescentes e recebi um convite de trabalho da Organização não Governamental inglesa LAWRS – Latin American Women Rights Service, que dá suporte integral para mulheres latino-americanas para que elas alcancem seu desenvolvimento pessoal e vivam livre de abuso, através de apoio especializado, informação e ferramentas que lhes permitam adaptarem-se e crescer.

Eu me considero uma pessoa relativamente forte. Lido com grupos em situação de vulnerabilidade social e desafios como violência sexual, doméstica, de gênero, trabalho infantil e tráfico de drogas. Em 10 anos, já sofri ameaças de morte, já fiquei em meio a tiroteio, tive os pneus do carro rasgados e já fui refém, em minha própria sala de trabalho, de um marido denunciado que queria me bater até eu falar onde estava escondida a sua então esposa. Ora, o que poderia amedrontar uma pessoa assim? Viajar sozinha parecia fichinha…. Porém, a ideia de viajar sozinha me causava essa ambiguidade: felicidade e terror.

Confesso que, mais tarde, chorei. Chorei de felicidade quando finalizei a compra da passagem. Chorei de desespero quando descobri que Londres era um dos destinos mais caros do mundo para os brasileiros. Chorei quando errei uma compra de entrada para um musical. Chorei de medo de morrer de avião. E chorei ao sair de casa, sem saber se meu inglês seria suficiente para me comunicar na entrada do país. Mas fui…chorando…fui!

Sabem, nunca considerei o choro uma fraqueza. Ao contrário. Eu me permito transbordar em situações de medo, insegurança e tristeza. Depois de chorar, eu seco as lágrimas e faço. O choro não me bloqueia, ele apenas me dá o tempo pra hidratar minhas ideias…e delas nascem flores.

Minha viagem foi assim: voltei florida, colorida. Um campo fresco de novas experiências e vontade de florescer de novo, mas no mundo todo. Tudo porque me permiti muitas primeiras vezes.

Primeiro show num estádio

Eu sempre morri de medo de aglomeração de pessoas. É até covardia dizer que superei, porque assistir Ed Sheeran no Estádio de Wembley foi uma experiência incrível. Aqui no Brasil, quando contava que estava indo para ver Ed Sheeran, as pessoas riam, dizendo que eu estava presa em alguma fase adolescente… Oi? O público londrino que assistiu ao show era composto por pessoas de todo tipo. Senhoras, senhores, idosas, crianças, homens, mulheres. Na Inglaterra, Ed Sheeran é música pra todo mundo, respeitado por sua trajetória musical e pela qualidade de suas letras e canções. Os ingleses mantém uma distância corporal respeitosa e silenciosa, que não invade e nem é invadida por ninguém. Com um público de 100 mil pessoas, em momento algum fui encostada, empurrada e sequer me senti no meio de uma multidão. Nos setores cujos assentos eram marcados, o público permanecia sentado, aproveitando as músicas com educação e, pasmem, sem filmar com o celular. Sim, os ingleses assistem aos shows com os olhos! Celulares apenas para algumas fotos. O resto é diversão.

Para o pessoal que ficou no setor Standing, lá pertinho do palco, era inacreditável ver essa mesma distância corporal respeitosa sendo mantida, sem empurrões, gritaria ou desespero. Em alguns momentos, parava de olhar pro Ed-fofo-Sheeran pra apreciar a interação do público. Cerca de 100 mil indivíduos reunidos pela música e com educação transbordando para todos os lados. Uma coisa que me chamou muito a atenção: nas telas do estádio de Wembley, corria um recado mais ou menos assim: “Se você notar algum comportamento antissocial, envie uma mensagem para xxx, informando seu setor e sua poltrona que iremos ajudá-lo. What???? Como não se sentir segura em um lugar assim?. Bem, para finalizar meu primeiro show em estádio (ok, eu fui assistir Menudos quando tinha 5 anos, mas dormi o tempo todo, então não conta), não posso deixar de contar que a água do banheiro era quentinha, as comidinhas deliciosas e as companhias desconhecidas muito simpáticas e prestativas.

Eu me senti num pub pequenino ouvindo jazz, porque era mais ou menos assim que todos se comportavam, mesmo em um estádio. Em nenhum momento as pessoas se aglomeraram, nem mesmo na saída dele. Não sei explicar se pela cultura da distância segura ou pela estrutura do evento. Eram 100 mil pessoas!!! Eu só as encontrei mesmo na chegada do metrô – também toda organizada, policiada e com controle de fluxo para que todos retornassem pra casa felizes e cantantes. O publico cantou Ed Sheeran do estádio à estação do metrô. Ainda com a ideia de que os ingleses são extremamente formais, ouço o locutor do metrô no microfone dando as informações importantes e finalizando com um “Sing it” (pra quem não sabe, uma das músicas do Ed Sheeran tem essa letra seguida de um ôôôô). Ingleses são hilários. E o povo cantou, porque o locutor mandou: “ÔOOOOOÔOOO”.

Primeira vez em hostel

Pois é! Foi num post do “Mulheres pelo mundo” que encontrei um female hostel em Londres. Com um preço fantástico e localização de disparar o coração (a duas quadras da London Bridge), encontrei o post num momento de desespero. Os hotéis são muito caros e minha única alternativa era um hostel. Mas eu estava bem insegura de dividir quarto com 16, 30 pessoas, no meu primeiro voo solo. O hostel – chamado Oasis St. Christopher´s Inn – recebe apenas mulheres, com um esquema de segurança super legal para garantir que possamos dormir tranquilas, andar de ‘carcinhola’ pelo quarto e ter a privacidade necessária para o básico: descanso, comida e banho quentinho.

Encontrei mulheres do mundo todo: muitas orientais de todas as idades, muçulmanas que cobriam cuidadosamente seus cabelos e rosto toda manhã e umas cidadãs que passavam o dia dormindo…rs. Não tínhamos tempo pra conversar. Cada uma tinha um horário diferente e motivos diversos para a hospedagem. O quarto acolhia até 8 mulheres, beliches com lugares seguros para as malas e ganchinhos para os trecos femininos. Banheiros limpíssimos e cabines de banho pequenas, mas confortáveis. Adorei me hospedar sem luxo, mas com conforto e perceber que viver somente com o necessário pode ser muito, muito satisfatório. Aliás, essa foi minha vibe em direção a Londres: simplicidade e felicidade no mesmo pacotinho – dois valores que andaram de mãos dadas. Ah, mas eu preciso deixar essas dicas para sobrevivência em hostel: para dormir bem, máscara tapa-olho, protetor auricular e para passear tranquila, cadeado nas malas 😉

Primeiro roteiro decidido por mim

O roteiro era não ter roteiro. Visitei Londres praticamente inteira a pé. Decidia no começo da manhã o que iria visitar, colocava um bom calçado, pegava um mapa e saía. Adoro lugares interessantes, me perder olhando movimento das pessoas, flores, algum mercadinho curioso ou música ao vivo. Aliás, músicos de qualidade não faltam pelas ruas londrinas. Compositores, cantores, quartetos de cordas. Dá pra gastar o dia só ouvindo concertos gratuitos de desconhecidos fantásticos (tá, vale contribuir com moedinhas e o fiz com muito gosto, imaginando assistí-los novamente em Wembley quando ficarem famosos). Me permiti passar dias deitada na grama de parques, fotografando esquilos, olhando um cisne limpar suas penas, olhando a roda gigante (London Eye) girar enquanto comia os melhores cookies do mundo sentada na grama.

Parei nas pontes pra observar o sol batendo nos prédios e pra ver o movimento das águas do Tâmisa nas construções. Perdi (ganhei) um dia lavando roupa e fazendo coisas de cidadã comum, como comprar papel higiênico, fazer comida e ajeitar o quarto (metade da minha estadia foi na casa de um amigo estudante: colchão inflável e banheiro compartilhado). A vantagem de Londres é que muitas atrações são gratuitas: Science Museum, Museu de História Natural, Galeria Nacional, British Museum. Há feirinhas com comidinhas deliciosas para todo lado, a qualquer hora do dia. Me perdi em bairros residenciais, suspirei com os jardins particulares e caminhei quase todas as noites na beira do Tâmisa (não, não dá pra enjoar).

Os dias no verão são longos: às nove da noite começava a anoitecer. Visitei o museu da Jane Austen, um dos lugares mais incríveis do mundo. Melhor explicar esse lugar assim: assista “Emma”, “Razão e Sensibilidade”, “Orgulho e Preconceito” que você verá exatamente o que está preservado em Alton: campos abertos com carneirinhos, construções centenárias, bibliotecas antigas, casas no melhor estilo inglês e flores, flores pra todo lado. Preciso dizer novamente que os ingleses são tão amigáveis que não me senti solitária em nenhum momento. Qualquer esboço de dúvida no meu rosto era motivo para alguém se aproximar e oferecer ajuda. Carregaram minha mala de 25 kg nas escadarias do metrô (dica valiosa, leve uma malinha pequena, tá?), me orientaram com transportes, compraram meu primeiro ticket do metrô. Ir pra Londres sozinha é assim: estar com as melhores companhias o tempo todo. Tem como não amar?

Primeiras frases em inglês (pra valer, porque treinar no curso não vale)

Achei que fosse fazer feio, feio mesmo com meu inglês intermediário. Já viajei para outros locais, mas acompanhada. Deixava que meus colegas e amigos terminassem minhas frases pra facilitar as situações do cotidiano. Quando não se precisa, a preguiça comunicativa impera. Ainda não sei como, mas consegui manter uma conversa de uns 50 minutos com um inglês em uma viagem de trem pra Alton, onde conheci a casa da Jane Austen. Aprendi a pedir que falassem pausadamente comigo e todos os ingleses com os quais me comuniquei se fizeram entender e disseram que meu inglês estava muito bom (ó, 5 estrelinhas verdinhas pra mim!). No terceiro dia eu já dava informações no metrô e ajudava turistas a encontrarem as linhas e conexões de transporte. Mas, de boa, acredito que o inglês britânico seja mais fácil por ter menos gírias que o americano. Aquele medão inicial passou e eu me senti tão poderosa me virando em outra língua que, às vezes, saindo do metrô, fazia uma dancinha idiota pra comemorar. Chegando em Guarulhos, meio sonolenta, olhei pra moça da TAM e perguntei: “Do you know if my …desculpe, você sabe se minha bagagem vai direto pra Goiânia?

Primeiro metrô tarde da noite

Pois é, peguei um metrô, o último da noite, depois de um passeio pelo The Grapes, um bar centenário que acolheu Charles Dickens em seus devaneios literários. Aproveitei pra partir apenas nos últimos minutos e peguei as últimas viagens de metrô até o hostel. Confesso sim que estava apavorada. Estou acostumada a não andar à noite, por segurança. Pegar transporte público depois de escurecer? Só se for uma emergência. Bem, lá as mulheres podem se sentir como se fossem….qual a melhor palavra pra isso?…. Ah, sim, como se fossem serem humanos se locomovendo de um local para outro.

Não recebi olhadas, não recebi cantadas e não experimentei nenhuma situação de perigo ou constrangimento (lembrando que é possível que isso aconteça, porque Londres é uma cidade cosmopolita. Atenção e cuidado nunca são demais!). Mas a partir desse dia, eu voltava sempre depois de anoitecer e esquecia o horário, porque a única coisa que indicava que era hora de voltar, era o cansaço, mas nunca o medo. Isso não é sensacional?

(Texto Caroline Arcari)

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