“Gourmetizaram” o Nordeste: adeus ao feijão com arroz

Foto Kelly Lima
Feijão com arroz é artigo raro, assim como o jerimum e a macaxeira

Parece um panorama azedo e coisa de gente que não está de bem com a vida. Mas no terceiro dia de mar caribenho, coqueiros arrepiando o céu no fim de tarde, brisa leve atiçando a pele, jangadas rasgando o horizonte do Nordeste brasileiro, só me passava na mente a vontade de comer o duo clássico de feijão com arroz.

Não como isso no dia-a-dia. Não sou afeita a raízes, daquelas que traficam pão-de-queijo e guaraná para Portobelo Road (Londres) e nem saio mundo afora distribuindo havaianas, regateando que minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá. Muito pelo contrário.

Uma das coisas que costumo curtir bem numa viagem é a inenarrável experiência gastronômica. Vá lá, não vou dizer que me arrisco a lá Indiana Jones em caldos preparados com cérebros de macacos asiáticos, ou algo menos radical, como formigas fritas, e, por experiências diversas, sequer perto de ostras e mariscos eu chego. Mas fico num meio termo, bem longe de fast foods e afins.

Essa maravilha de cenário

O fato é que no último Carnaval, desafeita a blocos do Rio, fugi com milhas para Pernambuco, pensando em estender viagem para a chamada Costa do Charme, em Alagoas. Tinha uma impressão não tão longínqua dessas bandas, coisa de 1995, tendo passado por lá parando nas praias, e checando condições de temperatura e turbidez das águas, em dias soltos ao vento com horas descontadas dessa vida por puro prazer e deleite.

Imaginei uma viagem deveras diferente da que encontrei e, que nem por isso achei ruim, muito pelo contrário. Mas o cerne gastronômico mereceu um olhar mais aprimorado.

Saí rumo a Recife na madrugada de sexta para sábado, quando os bolas pretas estavam afinando os instrumentos e partindo para abrir o carnaval carioca dali a poucas horas. Em Recife, aluguei um carro e parti para a primeira parada, a única com pousada reservada.

Praia dos Carneiros, em franjas de Galinhas, especialmente em amanheceres como este ainda vívido na mente, deveriam constar nas primeiras linhas daquelas listas do que fazer antes de morrer. Sinfonia de cores no céu. Tudo exuberante, e a viagem começando. Nem a trupe paulistana, generosa em vozes, cantos, carnes, gritinhos e grunhidos tira o encanto desses ares e praias. Muita gente. Na verdade, pouca gente, a se considerar o restante do litoral. Mas muito para Carneiros. Passado o dia, a noite e mais meio dia por lá chegou a hora de partir para a Rota Ecológica, chamada Costa do Charme, em Alagoas. Sem rumo. Sem destino e sem pousada reservada (*nunca façam isso num Carnaval).

As poucas praias que dão acesso ao turista desavisado, obviamente estão lotadas de grupos que param seus carros nas encostas para ali passarem o dia. O restante, praticamente 90% desse litoral está tomado de pousadas e restaurantes que tem seu fundo na areia. Ou seja: só pagando. E caro.

Ou haute cuisine ou “podrão”

Foto Kelly Lima

Não espere comida caseira com ingredientes locais no seu caminho

Não espere comida caseira com ingredientes locais no seu caminho

Sem pousada reservada, penei bastante para encontrar algo e eis que todo esse nariz de cera de relato é apenas para uma crônica-conclusão: gourmetizaram o Nordeste. Carambolas, cajus, pitangas, acerolas, cajá. Pitomba, mangaba e graviola. Deliciosas in natura, em sucos e em sala da de frutas, elas migraram para os cardápios e se desdobraram em temperos, molhos e quetais. Um almoço, um jantar, outro almoço, vá lá… Deliciemo-nos com essas maravilhas de nossa terra… mas na quarta refeição sem opção que não seja agridoce no cardápio, o paladar começa a dar ares de brucutu.

Opções aos pratos de três dígitos, são os trailers de sanduíches mais conhecidos pela lapa como os “podrões” da madrugada. Há, é claro, um ou outro quilo, que, confesso, não me aventurei naquele verão de temperatura elevada. Mas cadê? Onde estão aqueles peixes deitados na brasa sobre a areia no por do sol? Aquela muqueca regada de farofa, caldo de peixe, arroz e feijão? Aquele peixe frito com salada de tomate e alface? Não foi falta de procurar.

Claro que muitos me criticarão e dirão que procurei foi pouco. Em cinco dias de tudo lotado pela bagunça de Carnaval, com trânsito máximo de 20/hora, calor sufocante e pouca ou nada de brisa, desafio qualquer pobre mortal a essa caçada inglória sem desistir após a primeira hora. Fica a dica para quem quer largar tudo aqui e subir para aquelas bandas, arrumar-se na vida, olhando o mar e inverter as horas, trabalhando só no feriado: feijão com arroz é a próxima febre… basta só dar um pontapé inicial. Mas sem tantos toques cítricos, aroma de carambola, vinagrete de banana, carpaccio de manga ou raspas de cajá. Por favor…

Abaixo uma lista dos melhores restaurantes da região da Rota Ecológica, a chamada Costa do Charme, que tem um toque contemporâneo, ambiente agradabilíssimo, comida regional e merecem ser visitados, a despeito dessa crônica-crítica:

No Quintal – São Miguel dos Milagres

https://www.facebook.com/No-Quintal-Restaurante-Praia-do-Toque-181768048584244/

Amendoeira – São Miguel dos Milagres

http://www.pdamendoeira.com.br/01portugues/?page_id=11

Beijupirá – Praia dos Carneiros

http://beijupira.com.br/

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