Flanar sozinha alimenta sua alma. Experimente!

Neste relato, a documentarista Manu Campos conta como o flanar é fundamental para uma nova identidade
Escrevo sobre o Atlântico. Voltando para casa, depois de mais de dois meses vivendo a aventura de viajar sozinha. As águas do oceano abaixo dos pés e, na cabeça, o desejo de fazer o percurso novamente na memória. Não foi uma viagem qualquer. Não foi uma busca por diversão ou saída da rotina. Nem tampouco o desejo de ver paisagens ou de acumular histórias. Não fui fazer turismo na Europa. Mesmo tendo tudo isso no pacote, essa viagem foi uma forma de vagar sozinha e me encontrar.

Comecei a jornada chorando, vendo a lua se pondo cheia e laranja, no que calculei ser o deserto do Saara lá embaixo. Afivelada à poltrona, na direção contrária deste voo, me emocionava, agradecida, por partir em busca de um caminho. Eu não sabia o que me esperava e a incógnita me preenchia de mistério e ansiedade. Escrevi um poema e me senti feliz.

Bússola calibrada

Afinal o que é a felicidade senão ter a certeza de que estamos construindo o destino que escolhemos, livres para ir atrás dos chamados, das vozes guia que tantas vezes deixamos caladas por medo, educação ou simplesmente por falta de prática. Pois tudo que ganhamos quando viajamos sozinhas e sem garantias é a prática desta escuta. Sem essa bússola bem calibrada, a trilha não se abre à nossa frente e os milagres não acontecem. Você chega a algum lugar – sempre chegamos – mas percorremos a estrada sem brilho e sem magia. E que graça tem passar por uma rosa sem se apaixonar por ela?

Voltando para casa, a lua, agora crescente, se põe no oceano. Novamente laranja, novamente linda, novamente me lembrando que todo dia mil e um poemas são recitados pelo tempo, sem que ninguém leia, sem que ninguém veja. Que desperdício! Nesses dois meses e meio rodando a Itália, vivendo em Barcelona e passeando por Berlim treinei abrir os olhos para não perder os versos que o dia me recita.

Nessa dança, nesse enlace, acreditando em cada novo dia, em cada novo encontro, fui fluindo em um rio de descobertas, amizades, sincronias e percepções que me fizeram crescer e amadurecer mais que em muitos anos. A viagem sem garantias é correr riscos. Nem sempre é fácil, nem sempre é bom e nem sempre lhe deixa bonita, segura ou na moda. Mexe com os humores, lhe coloca em uma montanha russa e é preciso gostar delas.

Fuja do “imperdível”alheio

Quando viajamos com um propósito maior, quando o chamado por mover-se é também um chamado espiritual, muitas pedras são colocadas a nossa frente e precisam ser ultrapassadas, muitos desafios surgem e nos desgastam e isso não aparece normalmente na foto do facebook. Esses limites, essas pedras podem ser muito distintas e se apresentarem de muitas formas. Não avisam quando vão chegar e querem lhe tiram do seu sonho, da sua senda pessoal. Quem está em busca desse propósito, sofre muito quando se afasta dele e tem que fazer um esforço muito grande para recuperá-lo.

Portanto, se ao viajar o seu objetivo é encontrar seu eu mais profundo, sua identidade, seu sonho, seu impulso, cuidado, em primeiro lugar, eu diria, com a expectativa do imperdível. Não faça nunca da sua viagem algo para cumprir as dicas de um guia ou de um amigo. Se vai a Itália, busca a sua Itália, a sua relação genuína desse país contigo. O que lhe chama ali, como queres se mover, o que quer ver?

Tem certeza de que deseja ficar na fila de uma ruína? Ou apertada para jogar moeda em uma fonte? Se isso lhe fará feliz, fique. Mas nunca se force ao “imperdível”.

A única coisa imperdível talvez seja mirar os rondines voando sob a luz do entardecer de Roma, se este for o seu querer e se isto for o que lhe acontecer. É o que, afinal, permanece: aquilo que lhe emocionou, aquilo que lhe tocou, porque você estava exatamente onde tinha que estar e não cumprindo um compromisso de algum modelo externo qualquer.

Fugi do “imperdível” padrão durante dois meses e assim montei um roteiro de encontros com pessoas reais, gente do lugar, com coisas do lugar. Meu objetivo era me alimentar de originalidade através do relacionamento com moradores ou pessoas nascidas em cada localidade . Porém, mais do que me relacionar, eu queria me aproximar.

Comecei meu trajeto por Nápoles, a “Bela feia”, como escreveu Neruda. A cidade do bairro espanhol que lhe seduz a flanar e depois subir até o Castel Sant’elmo, sem querer, fazendo um trajeto de peregrinação por meio de parras em quintais e a bela vista do Vesúvio.

Casamento e novos amigos

O sol se põe e fico sonhando acordada com o que vem pela frente nesta aventura. Esta viagem começou a surgir em fevereiro de 2016, no primeiro dia de carnaval, quando recebi a mensagem de Valentina me convidando para seu casamento. Tratava-se de minha querida amiga italiana, que conheci aos 16 anos durante meu intercâmbio na gelada Dinamarca. Pois sete meses depois, em 24 de setembro, entre as amigas Tania, dinamarquesa e Henny, minha host mother, vemos Vale entrar diva pelo jardim, com seu vestido lindo, simples e chique. Um típico casamento Napolitano nos aguardava. Ao fundo Capri e, ao lado, o vulcão. Comi por mais de quatro horas seguidas e dancei “Volare” cheia de entusiasmo.

Depois dessa noite histórica, Nápoles ainda me presenteou com Pompéia, Vesúvio e por fim – como o roteiro já começava a ficar por demais banal e coalhado de turistas – troquei a famosa ilha pela menos pomposa Ísquia. Apesar de uma rua cheia de boutiques descaracterizá-la, Ísquia me proporcionou meu primeiro mergulho no Mediterrâneo, em frente a um castelo medieval, em uma ilha cenográfica. Em seguida, uma volta de barco ao entardecer vendo as gaivotas dançarem brincando com a bandeira italiana. Entre meu olhar e elas, algumas lágrimas. De gratidão.

Fotos: Manu Campos

De Nápoles parti a Foligno, na região da Úmbria, centro da Itália, cenário dos trágicos terremotos desse ano e uma cidade regada a festas e festivais. Fui convidada por Antônio Rosselini, amigo e paciente de meu pai. Um típico italiano que me mostrou o que é o espírito da família italiana. No mais alto grau do cavalheirismo, me hospedou em um delicioso hotel colado à estação e me proporcionou inesquecíveis encontros com seus amigos, que em menos de alguns instantes se tornaram meus amigos também: Morena, Efísio, Paola, Alberto, Diana.

A alma aberta na Úmbria

Já na primeira noite jantei no restaurante bacaníssimo de Morena, o “Green”, no centro de Foligno e tomei um aperitivo no chiquérrimo e super disputado “La Cantina de Efísio”, na vizinha Spelo. Uma cidade encrustada na montanha, dessas de sonho, onde também conheci Sis, uma brasileira linda, auxiliar de chefe do “La Cantina”, que vive na Itália há mais de dez anos e se tornou, em um breve encontro, amiga e confidente. Vi nela as dores e as delícias de quem decide sair de sua terra natal para conseguir uma vida digna em outro país. Senti empatia e vi que tínhamos algo em comum, que eu ainda não entendia muito bem o que era.

Na Úmbria, também vivenciei um dos momentos mais espirituais da minha vida. Depois de almoçar na casa de Diana – sogra de Efísio, uma mamma italiana completa – parti com Morena e Efísio para Assis. E ali, encontrei com São Francisco em grande estilo. Efísio marcou um encontro com Frei Loreto, esse franciscano de sorriso largo e fácil e um italiano bom de ouvir. Ele nos levou para dentro da Basílica, mostrou o refeitório, a varanda e o interior de um templo que exala a simplicidade desse santo altruísta.

Aliás, São Francisco tem um lugar todo especial na minha alma. Não só por sua mensagem de afeto e naturalidade, mas principalmente por meu sobrinho de apenas seis meses ter seu nome. Foi difícil conter as lágrimas quando entramos no interior na capela onde o Santo descansa há tantos anos. Aos seus pés, recebi uma bênção e um amuleto de Frei Loreto, que certamente veio pra proteger meu caminho e o de meu sobrinho, a quem repassei suas palavras. Voltamos pra casa, depois de passar pela igreja principal onde em seu interior há a coisinha mais linda, a capela onde Francisco pregava. Fortíssimo, muito espiritual. E no carro ainda fomos ouvindo música brasileira. Morena e Efísio são nossos fãs!

Força acolhedora

Não foi fácil deixar Foligno, essa cidade que pulsa de afeto, de carinho, de aconchego. Coração legítimo da Itália. Nunca vou esquecer o abraço que recebi de Diana, quando fui embora de sua casa depois do almoço em família. Aquela linda senhora italiana se padeceu de mim, por estar viajando sozinha. Depois de preparar sua deliciosa pasta italiana, me abraçou com uma força tão acolhedora que senti na hora que nunca me sentiria solitária naquele pedaço da Terra. Enquanto houver Diana em Foligno, terei um uma italiana protetora e carinhosa me aguardando. Belíssimo.

A Itália para mim será sempre o abraço de Diana, a bênção de Frei Loreto, o cavalheirismo de Antônio, a amizade de Morena e Efísio. Não dá para esquecer, nem ficar ileso, depois desse banho de humanidade que a Itália central lhe proporciona. Recomendo.

Pois este país ainda me deu a Toscana! Um passeio lindo entre as uvas e um susto de me ver perdida, por sair da rota. A amizade de uma nova família, um novo amigo, uma amiga Basca; a beleza de Siena; a Rua da Esperança e a subida na torre de San Gimignano, ouvindo Mercedes Sosa. Apesar do clichê, senti realmente uma enorme gratidão pela vida.

A Itália me deu novamente Roma e seus segredos desvendados pela bela guia e grande nova amiga, Paola Dragone. A musa do meu doc sobre o amor, onde ela e Alberto, entre beijos inspiradores, povoam o mundo de belezas cintilantes como seus olhos azuis. Roma de lambreta, Roma de surpresas, Roma para sempre.

Acompanhe os relatos de Manu em Barcelona e Berlim através de seus vídeos e poemas. Não perca!

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