Delfinópolis: o lado B da Serra da Canastra

Foto: Kelly Lima
Fazendas oferecem estrutura para suas descobertas aquáticas - Fotos: Kelly Lima

“Você pode escolher o caminho da luz, onde veremos as plantas que Deus nos deu ou o caminho das trevas, por baixo da terra, situação limite, água até o pescoço. Todos saem no mesmo lugar, mas a escolha é sua” – disse Gésus, nosso guia.

Não, não se trata de um erro de digitação ou ortografia em relação ao líder católico. E, não, este não é um texto bíblico, embora o “lugar” a que ele se refira seja realmente um paraíso, com o perdão do trocadilho infame. Mais precisamente, este paraíso fica em Minas Gerais e se chama Delfinópolis.

Delfi, o quê? Delfinópolis é um município mineiro, que surgiu no século XIX em torno da capela do Espírito Santo (ops, religião de novo?), e que recebeu este nome em homenagem ao governador à época, Delfim Moreira. Mas para que tanta história? O que importa é saber que Delfinópolis é o lado B da Serra da Canastra.

Mais de 130 cachoeiras 

O município, e com ele os diversos sítios e fazendas que guardam mais de 130 cachoeiras, ficaram do lado de fora da divisão do Parque Nacional da Serra da Canastra, que guarda a nascente do Rio São Francisco. Na prática, o município está praticamente encostado no paredão da Canastra, mas não deve ser usado por turistas desavisados para chegar até o parque, a menos que seja num 4×4 e com muito tempo e disposição para destrinchar trilhas off road, já que há outras passagens mais acessíveis ao Parque do que esta.

A despeito de ser um acesso ao Parque, Delfinópolis virou um destino turístico por si próprio. Mas daqueles que não atraem multidões. À exceção dos feriados prolongados, onde os habitantes da região migram para lá e, literalmente, se apropriam das cachoeiras próximas da cidade com barracas e churrasqueiras. (Fuja!)

O ideal mesmo é tirar uma semana para aproveitar as trilhas em toda a sua calmaria e desfrutar de cachoeiras praticamente vazias.

Todas elas, como disse acima, estão guardadas dentro de fazendas e sítios que, por ficarem de fora do Parque Nacional da Serra da Canastra, cobram entradas (variam de R$ 5 a R$ 30) e aproveitam para oferecer pousos e refeições. São típicos almoços mineiros, com fogo à lenha, cachaça, prosa, muita fartura e gordura. Deixe a dieta em casa e caia de boca. A dica é: vá de carro! Não dependa de agências turísticas e escolha uma ou mais fazendas para pernoitar. Em uma semana dá para escolher duas delas e dividir entre os dias os passeios mais próximos.

Caminhos do paraíso

O roteiro turístico “oficial” sugere como principal atrativo de Delfinópolis as Cachoeiras do Claro com quatro quedas, mas não perca tempo. São belas, porém urbanizadas, com cimento praticamente chegando próximo da água e instalações para acoplar as churrasqueiras e isopores. Muito próximo da cidade, longe o suficiente da muvuca, está o Complexo do Luquinha – o preferido desta autora – com três quedas. No período de mais calor, de outubro a fevereiro, uma delas reserva uma piscina natural formada nos períodos de chuva. Mas no período da seca, ela também convida – ou seria, intima? – o visitante a receber sua ducha e massagem forte. Indescritível.

Há ainda o Complexo do Paraíso com seis quedas e também diversos poços propícios para o banho. Não o confunda, porém, com o complexo da Fazenda Paraíso que abriga os encantos de outras oito cachoeiras. Na Fazenda, é possível também encontrar o Gésus, guia que citamos no início do texto e que,  já com mais de 50 anos e criado do local, conhece tudo, absolutamente tudo na região. Ele pode sugerir não só os melhores passeios, mas ainda os melhores e piores acessos, como na descrição acima quando explicou o porquê de atravessar uma gruta ou o campo aberto para chegar à cachoeira sugerida. Gésus é uma figura das mais agradáveis, cheio de causos para contar na hora certa e sabe praticamente “sumir” quando queremos apenas relaxar, sozinhas ou acompanhadas, para desfrutar da cachoeira escolhida.

Fotos: Kelly Lima

Esses são os complexos mais conhecidos e são acessíveis sem guia, de carro, caso você pare na entrada da Fazenda, reserve seu almoço para o fim da tarde e siga pelas diversas trilhas. Cada um desses complexos tem suas peculiaridades: mata mais fechada, mais poços, muita água ou pouca, quedas mais ou menos fortes, trilhas íngremes ou facilitadas.

Porém, existem inúmeras atrações que são alcançáveis apenas com um guia, seja pela dificuldade de acesso, seja porque o próprio “dono” da fazenda não permite a entrada sem um acompanhante para sua própria segurança. São assim as Cachoeiras do Ézio, Taboão, Quilombo, Maria Augusta, Serro Alegre, Pavil (com L mesmo) e Zé Carlinho (sem s mesmo).

Para saber como ir a cada uma delas, onde ficar, quais pousadas são melhores ou piores e quem oferece o melhor prato ou relação custo X benefício, basta um Google. Há muitas sugestões. Mas as melhores descrições só podem ser obtidas na prosa com o povo de lá. Sim. Confie. É mineiro, boa gente. É tímido e parece meio avesso ao visitante no início de conversa, mas sai logo a contar a vida – própria e do lugar – quando ele se sente em casa. Sim, porque ao colocar um dedinho naquelas águas, quem vai estar em casa e nunca mais deixar de frequentar, será você.

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