Buenos Aires off: abra-se a novas sensações

O capítulo final desta saga porteña deixa um gosto de saudade, mas abre ainda mais os sentidos para novas formas de experimentar a cidade. Pense bem, você já caminhou, já fotografou, já provou, já se deleitou, já entornou, já se acabou… O que mais sobra para se convencer de que Buenos Aires é aquela paixão que não se esquece, mesmo depois de 35 anos de casados, cinco netos e um bisneto? Fazer um circuito “Buenos Aires off”.

Sobram sensações que não se apagam com o tempo: uma roupa para uma determinada noite, um som, imagens fugidias e, como você verá, até mesmo o vazio e a escuridão. Buenos Aires lhe acompanha em sua volta para casa e se acomoda quieta em partes do seu corpo (o coração, os ouvidos, o córtex cerebral, os pés) até que você decida comprar uma nova passagem que tenha o Ezeiza ou o Aeroparque como destino final.

Veja se não tenho razão…

 

  1. Visite o Abaporu no Malba

O Papa Francisco, super gente boa, pode ser argentino, mas o Abaporu é nosso, não importa o quanto tenha gasto a família Constantini. Ele está “hospedado” no Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba), fazendo aparições públicas diárias para admiradores dos quatro cantos do mundo enquanto descansa os poros da sua lona por um tempo. Portanto, vá lá lhe fazer uma visita. Se dê conta que ele não é um ser estranho e sim um mulherão à beira do precipício. Pois é, nossa amiga Tarsila do Amaral soube como ninguém nos traduzir. Mais um motivo para homenagear o quadro: por nós, pelo Brasil e por Tarsila.

http://www.malba.org.ar

Endereço: Avenida Pres. Figueroa Alcorta, 3415

Horários: Fecha às terças. Quartas de 12:00 às 21:00. De quinta a segunda (inclusive feriados), de 12:00 às 20:00

 

  1. “Assista” ao Teatro Ciego

A Ilha deserta é o lugar onde o faxineiro de uma empresa do setor naval diz que já enfrentou tigres, viu sereias e naufragou. Mais ainda, é o lugar para onde você é transportada de olhos vendados assim que entrar no teatro do Ciudad Cultural Konex. Ou seja, “A Ilha deserta” é a peça do argentino Roberto Arlt que – encenada pela primeira vez há 78 anos – inaugurou o Teatro Ciego, em 2001. Formada por atores cegos e videntes do Grupo Ojcuro, a Companhia teatral visa proporcionar ao espectador o despertar dos seus sentidos a partir da encenação da peça no mais absoluto breu. Asseguro: por mais que esteja preparada, você não imagina as sensações que estão à sua espera. É uma das melhores experiências sensoriais e humanas que podemos alcançar. Saber que os atores são cegos, entender que você se encontra na mesma condição e que todos compartilham da mesma vivência (por sinal um texto enxuto, com atuações ótimas) gera um entusiasmo único. Altamente recomendado.

Além da peça no Konex, em sua sede no bairro de Abasto, o Centro Argentino de Teatro Ciego alimenta a curiosidade dos espectadores com um menu variado de experimentos sensoriais: o “Todos Sonidos”, produz concertos no escuro e “A ciegas gourmet” prevê um jantar com cantor e pianista, no qual aromas e sabores ganham um novo significado (com opções de cardápio para vegetarianos e celíacos). Já o “Parlantes Holofonicos” visa oferecer uma prova das possibilidades da holofonia – uma técnica de gravação criada pelo argentino Hugo Zuccarelli que permite a reprodução de sons tridimensionais em um ângulo de 360º para o cérebro. Ela “gera a sensação de estar imerso em cena com um grau de realismo impressionante”, explica o site do CATC. E o que a gente ouve no escuro total parecendo que a música toma corpo? Pink Floyd, Radiohead, Daft Punk, Artic Monkeys, The Doors, Beatles…

http://www.ciudadculturalkonex.org

Endereço: Calle Sarmiento, 3131 – Tel: 4864.3200

Horários: Sábados, às 20:15 e 22:15

http://www.teatrociego.org

Endereço: Calle Zelaya, 3006 – Abasto – Tel: 6379.8596

Horários: Segundas, quartas, quintas, sextas e sábados, a partir das 18:00

 

  1. Seja milonguera no La Viruta

Há uns 10 anos, fazia aulas de tango no Rio e, numa viagem à capital argentina, quis vivenciar a experiência in loco. Marcada a classe particular na Calle Florida, fui toda animada já me achando a parceira que Gardel pediu a Deus. Mas o professor era um ditador, que me acusava de rebolar até quando estava parada. Nesta viagem, depois de longo trauma, resolvi dar uma chance às aulas de milonga e tango no espaço La Viruta, ultra recomendadas até pelos porteños. Elas acontecem no subsolo e no hall de entrada da Associação Armênia, no Bairro de Palermo.

Fotos: Rosane Serro

La Viruta2

Quem assistiu ao filme “Luna de Avellaneda”, de Juan José Campanella, pode imaginar a atmosfera. No subsolo, o salão escuro – com luzes coloridas, armários de metal para guardar os pertences e um bar que já teve seus dias de glória – é dividido entre os experientes e os neófitos. Às 20h, um professor cubano inicia as aulas coletivas de salsa e, às 21h30, um casal ministra as de milonga. Entre uma aula e outra, há uma sessão de zumba. Neste momento, você se pergunta: como eles esperam que nós reprogramemos nossos corpos para sair dos rebolados curvilíneos da salsa e da zumba diretamente para a milonga, dança de corpo duro em que se quase contam os centímetros entre um pé e outro?

Você se pergunta, mas continua tentando. É outra cultura, outra lógica. Você quer entender e reproduzir aqueles códigos, se apropriar deles, de uma maneira que eles possam fazer parte do seu mundo também. Bem, após essa aula de milonga, você pode seguir bailando – com seus pares de aula ou não – no lado do salão reservado aos dançarinos mais experientes. Declinei. Resolvi ir para um boliche experimentar sentar na “barra” (balcão). Ao deixar a Associação Armênia, no entanto, tive que passar pela aula de tango, no lobby. Uma roda enorme de turistas, em sua maioria, circundava e observava o casal de professores, cujos pés – colados ao chão – sustentavam seus corpos congelados numa pose escultural e acrobática. Ao mesmo tempo, as mãos do professor giravam m-i-l-i-m-e-t-r-i-c-a-m-e-n-t-e o corpo de sua parceira. Balancei a cabeça, vencida. Foi um sonho bom, enquanto durou. Na próxima encarnação, solicitarei, em três vias, um chip específico para milongar. Nesta, me conformarei apenas em soltar os bichos.

La Viruta Tango

Endereço: Calle Armenia, 1366 – Palermo – Tel: 4774.6357

Horários: Aulas a partir das 18h

Luna de Avellaneda – https://youtu.be/8yNhWJG7zVY

 

  1. Desperte na noite dos Museus

Ela acontece, em geral, nos meses de outubro ou novembro, movimenta quase um milhão de pessoas entre residentes e turistas e envolve 209 museus e espaços culturais abertos enquanto a noite existir. De Norte a Sul, do Rio da Prata ao lado oeste da cidade, toda Buenos Aires flui e respira cultura. Exposições, happenings, shows, recitais de poesias, leituras, palestras, visitas guiadas. O  cardápio é enorme e tira o sono só de pensar. Quer um conselho? Programe uma ida à cidade em cuja data inclua “La noche de los museos”. Pesquise as atrações no site do evento, marque suas opções imperdíveis e vá se deliciar. Há alguns anos, acompanhei uma visita guiada à casa de Jorge Luis Borges, com projeções de fotos de seu arquivo pessoal em plena rua e, no Museu de Belas Artes, descobri um buraco numa tela de Degas (deu saudade do MNBA do Rio, o acervo do similar porteño é formado por heranças de famílias e retratos de desconhecidos).

http://www.lanochedelosmuseos.gob.ar

http://www.buenosaires123.com.ar/noche-de-los-museos.php

 

  1. Viaje no tempo em Los Octubres

Foto: Rosane SerroTudo bem, você não lembra exatamente quem foram Perón e Evita, não ficou muito ligada com o que aconteceu com a Argentina nos últimos 50 anos, mas sabe que existe um mito similar ao que mantemos pelo Getúlio (aliás, foram contemporâneos). Não tem problema. Uma ida ao Los Octubres não vai lhe tirar pedaço. Você pode tomar uma cerveja JP no terraço, perto das árvores, decorado com vitrais que remetem à glória da era peronista. Ou jantar no restaurante – típico argentino, especializado em carnes – que obedece à tendência modernosa da “cozinha de autor”. Depois do café, dê uma passada na lojinha e se divirta com toda memorabilia do casal. Leve um presente para o seu namorado ou namorada que flertam com partidos e movimentos de esquerda que priorizam as pessoas e não o capital. Eles vão curtir. Pode confiar.

 http://www.losoctubres.com.ar

Endereço: Calle Thames, 1788 – Palermo Soho – Tel: 4831.0454/4832.7848

Horários: Bar e restaurante, a partir das 18:00. Loja, a partir das 10:00. Café no térreo: de 10:00 às 18:00.

 

6. Declare seu amor pela cidade 

Foto: Rosane SerroSe no último minuto bater aquela vontade de não voltar para casa, não se acanhe. Leve contigo algo que lhe unirá ao Puerto de Nuestra Señora de Santa María del Buen Ayre para sempre. A brasileira Joana Bauer, 19 anos de Argentina, entenderá perfeitamente o seu sentimento e o traduzirá em volteios e tipologias multicoloridas. Justo como no fileteo porteño que adorna boliches, affiches, gôndolas e toda iconografia do tango.

http://www.facebook.com/JulianaBauer

Juliana Bauer, tatuadora – Tel: 4165.6181

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